Quando despertou, não reconheceu o sítio onde estava. Uma sombra
espessa despegava-se da alma, devolvendo-lhe a personalidade aos poucos, pingo
a pingo. Não a afastava totalmente, porém. Queria a sombra e o poder que esta
lhe dera, uma energia incomensurável que ele nunca tinha experimentado antes,
negra como a maldade. Talvez fosse essa a sua famosa herança, a reencarnação de
algo poderoso que existira há muitos anos atrás e que ameaçara o Universo, como
lhe tinha contado o sensei.
A lembrança do mestre agoniou-o. Esfregou os olhos, descobrindo que
estava sentado junto a um monte de entulho, que acumulava madeiras velhas,
pedaços retorcidos de ferro enferrujado, plástico esburacado e vidros partidos.
Levantou-se e começou a atravessar a ruela com cuidado, pois estava
descalço. A sombra insinuava-se dentro dele, transtornando-lhe a razão,
tentando-o de uma maneira que ele não desgostava inteiramente. Saboreara e
gostara daquele poder tão espesso como a sombra.
O nome do feiticeiro misterioso irrompeu-lhe pelo cérebro, como se
fizesse parte da sombra, uma franja tão fina quanto um cabelo. Zephir saberia
ser amigo dele, acompanhá-lo e estimá-lo, muito diferente do mestre que não
tinha sido sincero com ele, que lhe mentira e que continuava a mentir-lhe. A
raiva misturava-se com a desilusão, as lágrimas salgadas enchendo o vaso
interior, assomando-se aos olhos castanhos e nublados.
- Olha, um preto.
- O que é que faz um preto sozinho por estes lados?
Ubo parou.
Dois rapazes, grandes, barravam-lhe o caminho. Vestiam blusões negros
com aplicações prateadas, calças também negras, botas de solas altas de
borracha. Tinham a cabeça rapada, lisas como bolas de bilhar.
- Ouviste, preto? Estou a falar contigo. O que é que fazes por estes
lados sozinho?
- Não tens língua, escarumba?
Ubo franziu a testa, não estava a entender as ameaças. A sombra
começou a crescer, a maldade esticando-se como um plástico a ser desenrolado.
Juntaram-se outros dois rapazes, que se colocaram atrás, rodeando-o.
- O preto não quer responder.
- Que falta de respeito. Temos de lhe ensinar boas maneiras.
Riram-se.
Ubo analisou-os. Eram desajeitados e fáceis de abater.
- Andas à pesca, preto? ‘Tás longe do mar, preto.
- Olhem só a pinta do preto. Tem penteado giraço e tudo.
Deram-lhe uma palmada na parte de trás da cabeça. Ubo arreganhou os
dentes.
Riram-se outra vez, mas houve um deles que reparou na reação dele.
- Eh lá… Não estás a gostar, preto?
- O que foi que o preto fez?
- Mostrou os dentes.
- Eh, pá! Temos mesmo de lhe ensinar boas maneiras.
Uma mão agarrou-o pelo ombro, voltou-o. Ele dobrou ligeiramente o
pescoço e evitou o murro, que lhe raspou o penacho de cabelo. O rapaz
admirou-se com a forma como ele conseguira esquivar o golpe.
- Merda! Como é que o preto fez isso?
Outra mão agarrou-o pelo outro ombro, voltou-o tão depressa que Ubo
sentiu-se tonto. Não por causa do gesto, mas por causa da sombra que tinha
dentro dele, daquela raiva toda, da lembrança amarga do sensei a mentir-lhe.
- Eh, preto. Pensas que és melhor que os brancos?
Não percebeu o discurso.
Recebeu segunda palmada.
Já estava farto de aturar aqueles gabarolas.
Inclinou a cabeça para o lado direito, sorrindo com um esgar maléfico,
algo que a sombra lhe ensinara a fazer, que vinha das profundezas de uma
memória sepultada. Depois, atacou.
Duas cotoveladas nos dois que estavam atrás, um salto com um pontapé
violento que desfez os maxilares dos dois que estavam à frente. Os quatro
rapazes caíram inconscientes, o sangue escorria dos narizes e da boca. Não fora
com muita força, o que era uma pena, pois a energia dele crescia sem parar, a
lava inchando dentro de um vulcão prestes a entrar em erupção. Mas não podia
utilizar toda a sua força, senão matava os quatro rapazes e ele não os queria
matar, apesar de a sombra apenas se satisfazer com esse desfecho. Enxotou a
sombra, assustado com os sentimentos espessos que ela lhe dava.
Ubo afastou-se, num andar vagaroso. Tinha um peso no coração, uma
sombra maldita a engoli-lo, a voz de um feiticeiro que nunca vira a
incomodá-lo.
Porquê, Goku-san?
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