A paciência de um namekusei-jin
tinha limites e ele era ainda menos paciente que um namekusei-jin normal.
Piccolo levantou-se. A capa branca ondulou a acompanhar-lhe os passos
que o levavam para fora daquela caverna húmida e claustrofóbica, situada
algures numas montanhas e que era o local que substituía o Palácio Celestial na
Dimensão Real.
A forma subtil e mesquinha de Zephir humilhar Deus. Estava convencido
que o feiticeiro escolhera com especial atenção aquela caverna enfiada nas
profundezas da Terra, que não condizia com o arejado recinto que flutuava entre
as nuvens e de onde Deus vigiava a Terra. Dende nunca se queixara. Passava os
dias recolhido em pensamentos ou conferenciando com Mr. Popo sobre os males
daquele mundo, chegara a intervir em algumas ocasiões, discretamente,
proporcionando alívio às penas que lhe magoavam mais o coração, apesar de Mr.
Popo alertá-lo para os possíveis perigos dessa interferência. Piccolo, por seu
turno, entregava-se a uma profunda meditação, procurando alhear-se do que se
passava à volta, a resignação de Mr. Popo, a ingenuidade de Dende.
Mas depois de tanto tempo confinado àquele espaço exíguo, sentia falta
de ar e falta de exercício, a paciência esmigalhada, os nervos à flor da pele.
Dende apareceu.
- Onde vais, Piccolo-san?
- Vou sair.
Parou. O Todo-Poderoso reagiu mal à resposta.
- Tu não podes sair, Piccolo-san! – Exclamou agitado. – Nenhum de nós
pode sair. O nosso aspeto é demasiado esquisito para os padrões da Dimensão
Real.
- Pouco me importa o meu aspeto – ripostou a reter a raiva.
A estreita saída da caverna estava tão escura como o seu interior, o
que queria dizer que anoitecera na Dimensão Real.
- Não há problema. É de noite e ninguém anda por estas montanhas do
fim do mundo a estas horas. Ninguém me vai ver.
Dende desistiu.
- Tem cuidado.
Não lhe respondeu.
No exterior, o vento era frio e soprava em rajadas que varriam os
montes despidos, habitados por sobreiros silenciosos. A noite estava escura, no
céu as nuvens prometiam chuva e ocultavam as estrelas. Levantou voo,
afastou-se, sobrevoando cauteloso as árvores, a capa branca adejando,
assemelhando-se a um fantasma vigilante da quietude noturna.
Aterrou suavemente num pequeno vale, um local discreto e deserto
afastado de luzes e, portanto, de casas e de gente.
Inspirou profundamente o ar fresco, concentrou-se devagar. Nada de
pressas, saboreava cada segundo daquele momento egoísta, olhando para o seu
interior. Curiosamente, não conseguiu vazar a mente na totalidade, tal como seria
preferível. As memórias de um passado muito afastado e que devia já estar esquecido
subiram à tona para o assombrar.
Recordava e, sem saber porquê, não fez nenhum esforço para impedir
essas recordações, enquanto reunia o poder que latejava dentro dele e que ousava
desatar, naquela noite, na estranha Dimensão Real.
O dia da sua maior glória e também o dia do seu maior fracasso, o
destino encarregara-se dessa ironia. Apertou os punhos. Concentrava-se, a
recordar aquela ilha, vinte anos antes.
O barulho surdo da terra a agitar-se debaixo dos pés, o sabor
inconfundível do poder descomunal que o fazia invencível, os olhos assustados e
incrédulos do seu adversário. Soubera, então, que não tinha rival. Nem mesmo os
saiya-jin estavam à altura da sua
força depois de ele e de kami-sama se
terem unido num namekusei-jin
temível.
Os guerreiros tentavam salvar a Terra do poder destrutivo dos humanos
artificiais do Dr. Gero. Número 17 sofrera a primeira derrota, tentava
desesperadamente eliminá-lo, a raiva aumentava na mesma proporção da
frustração, e ele, o namekusei-jin
temível, encharcava-se em orgulho.
Deixou de sorrir com a memória seguinte.
Em cima da depressão rochosa, o monstro olhava-os. A ele, a número 17.
Aos outros humanos artificiais, número 18 e número 16. Tivera um mau
pressentimento. Cell, o androide orgânico, aproximara-se. Exibira o seu novo
poder, conseguido à custa das vidas humanas que tinha absorvido. Então, o namekusei-jin temível compreendera, com
amargura, que estava derrotado.
Abriu os olhos. O corpo quente inflado de energia, pronto para começar
com os treinos.
As recordações precipitaram-se num turbilhão de sensações. Cell era
terrivelmente poderoso. Atacara número 17, queria absorvê-lo com todas as
consequências nefastas que isso traria para o Universo. Consciente das suas
limitações, Piccolo atacara o monstro. A voz de número 16 pedia que número 17 e
número 18 fugissem. O último ataque, a explosão, a chuva de água salgada e de
pedras. O rosto desafiador de Cell. A dor profunda no pescoço. O esquecimento…
Gritou. Envolveu-se no próprio grito, borrou as recordações.
Gritou tão alto que os montes abanaram e o mundo inteiro da Dimensão
Real. Tentou manter-se ereto ao sentir o corpo separar-se em dois. Os músculos,
os órgãos, a pele, a mente dividia-se. Após uns instantes de dor e de confusão,
ao abrir os olhos, tinha diante dele o seu duplo. Um segundo Piccolo, um
segundo namekusei-jin temível, com as
mesmas recordações.
Não havia tempo para cortesias ou convites. A partir do instante em
que se dividia em dois, os treinos começavam. Havia, no entanto, uma regra. O
duplo nunca atacava antes dele, então Piccolo tomou a iniciativa.
Na noite silenciosa, seguiram-se golpes e contragolpes violentos, que
iluminaram o cenário com relâmpagos intermitentes sempre que faziam contacto. O
som do combate troava no vale, estremecendo o ar, lançando bolhas de calor que
agitavam os sobreiros e os arbustos.
Piccolo pontapeou o duplo na cara, que caiu de costas. Aproveitando a
aparente vulnerabilidade, saltou-lhe para cima, para o atingir com os punhos,
mas o duplo desviou-se. Saltou, devolveu o ataque com um forte pontapé nas
costelas. Piccolo gemeu. Irritou-se e atacou o duplo com ganas. Conseguiu
afastá-lo com um par de socos, aumentou a distância dando um salto mortal. Mas
quando esticou os braços para conseguir agarrá-lo e atirá-lo outra vez ao chão,
o duplo tinha desaparecido.
- Nani?! Onde é que se meteu?
Sentiu-o perto, a mascarar a energia para não ser notado. Piccolo
postou-se no terreno, a visionar a paisagem escura com os olhos e com a mente,
em posição de defesa. Aguardava… Os segundos pareceram-lhe horas.
Nisto, um sibilo cortou o silêncio da noite. Piccolo voltou-se e os
olhos esbugalharam-se com o espanto. Um raio mortífero precipitava-se na sua
direção. O duplo atacava-o com um Makanko
Sappou.
O único gesto que conseguiu fazer foi uma palmada. Piccolo desviou o
ataque que fendia o ar numa espiral alaranjada. O raio embateu na encosta de um
monte, explodiu e a terra saltou por todos os lados.
- Nada de ataques energéticos – avisou irritado.
O duplo limitou-se a sorrir.
Reataram o combate. A luta era renhida, estranha para quem a
observasse. Os dois namekusei-jin,
nascidos de um mesmo ser, digladiavam-se furiosamente para superar o contrário
em força e em técnica.
O duplo apanhou Piccolo com uma cotovelada no estômago, derrubou-o. O
duplo estendeu as mãos, os dedos muito abertos. Piccolo sacudiu a cabeça para
despertar, encarou o adversário com o rosto crispado.
Nas mãos do duplo brilhava uma bola amarela de energia que iluminava
as silhuetas de ambos. Piccolo cerrou os dentes, a bola explodiu em cima dele.
O som propagou-se pelos montes, varrendo-os numa vaga imparável, provocando um
sismo.
Piccolo ergueu-se no meio de uma nuvem acinzentada e vociferou:
- Kuso! Já disse que não
quero ataques energéticos!
O duplo desafiou-o com uma gargalhada.
- Estás a brincar comigo? – Indagou Piccolo entre dentes.
O duplo não lhe respondeu.
Piccolo retirou o turbante e a pesada capa branca, o duplo fez o
mesmo. Inclinou o pescoço para ambos os lados, apertou os dedos, fazendo
estalar as articulações.
Novo assalto, nova luta renhida. Pontapés e murros, Piccolo tinha
vantagem, enviou o duplo numa espiral desgovernada até ao céu ao lançar com as
mãos um disparo invisível de ki.
Subiu atrás do duplo, ultrapassou-o no ar, atingiu-o com um pontapé à
meia-volta na cabeça. Viu o adversário cair no monte, abrindo uma cratera que
espalhou pedras e vegetação em redor.
Respirou fundo, limpou o suor da testa. Concentrou o ki, precipitou-se para o local da
cratera, punho em riste, cruzando os céus, assobiando como um meteorito a
precipitar-se sobre o planeta. Mas quando estava perto, viu a cratera vazia.
Estacou, a pouca distância, flutuou, recuperando o equilíbrio. Não conseguiu
evitar a resposta do duplo. Sentiu o impacto nas costas, o corpo a ressentir-se
com a dor súbita. Caiu com estrondo, arrancando sobreiros pela raiz.
Levantou-se ligeiramente aturdido, mas riu-se.
O duplo aterrou à sua frente. Sorria, e era como se Piccolo se visse
ao espelho.
Preparou novo ataque. Dobrou os braços pelos cotovelos, afastou as
pernas e dobrou-as pelos joelhos. A energia insuflou-lhe os músculos,
aumentou-lhes o tamanho.
Mas, de repente, estacou. O seu ouvido apurado alertava-o para alguma
coisa que estava a acontecer nas redondezas. Tinha-se afastado do vale que
tinha escolhido para os treinos, conseguia avistar, mais acima, uma estrada
estreita e alcatroada. Chamou a si o duplo, os dois fundiram-se no tempo de um
segundo. Descontraiu-se para recuperar a sensação na pele, pois sempre que
fazia o duplo regressar ficava, por momentos, dormente.
Escutou outra vez o pedido de socorro. Não vinha através de gritos
pungentes, mas de lamentos espaçados, quase silenciosos, esmagados pela
imposição de quem estava a atacar. Seguiu o que a audição lhe revelava, nos
confins serranos. Avançou por entre as árvores, escalou uma encosta e descobriu
um veículo estacionado, dissimulado entre a vegetação.
Escondeu-se atrás de uma árvore, certificando-se que os barulhos
vinham dali. O veículo de quatro rodas abanava de um lado para o outro, sinal
de que se desenvolvia uma qualquer luta no interior. Os lamentos passaram a
gemidos dolorosos e aflitos.
Apressou-se. Alcançou o veículo, lançou-se à porta e arrancou-a. O
metal torceu-se nas suas mãos, atirou a sucata para longe, que caiu com um
ruído arrepiante. Enfiou a cabeça dentro do veículo. Foi saudado com um grito
estridente.
Uma rapariga, meio despida e de pernas alvas levantadas até ao
tejadilho, mirava-o aterrorizada. Um rapaz, que estava sobre a rapariga,
voltou-se irritado.
- Mas que merda vem a ser esta?
Piccolo imobilizou-se. O pedido de socorro vinha dali, tinha a
certeza, mas a cena que surpreendera não lhe parecera condizente com um
assalto, com uma vítima e com um atacante. Abriu a boca, queria dizer qualquer
coisa, mas não conseguiu pensar em palavras. O cérebro era um deserto de
silêncio.
A rapariga gritou, a tentar recolher as pernas. O rapaz abriu os
braços, esmagou a rapariga nas suas costas, empurrando-se para trás com os pés
que carregava no banco da frente do veículo. Repetiu histérico:
- Mas que merda vem a ser esta?!!
- É um extraterrestre! Socorro!!! Pedro, faz alguma coisa!
Tanto a rapariga como o rapaz estavam pálidos como a face da lua.
Piccolo susteve a respiração. Sentia o suor a encharcar-lhe a testa.
Estava tão assustado como os dois infelizes dentro do veículo.
- Precisam de ajuda? – Sussurrou, arrancando a frase do estômago.
- Ele fala! Pedro, por favor! Tira-o daqui!
O rapaz tateou o chão, as mãos a tremer:
- Onde está o meu taco de baseball?
Merda… Onde está?
A rapariga fincou as unhas vermelhas no braço do rapaz.
- Merda, larga-me! Preciso do taco!
- Ele vai levar-nos! O extraterrestre vai levar-nos!! Pedro, faz
alguma coisa!
- Estou a tentar! E para de me gritar aos ouvidos!
O drama já tinha durado demasiado, pensou Piccolo.
O rapaz fez um gesto brusco, brandiu diante dos olhos dele um pedaço
de madeira arredondado na extremidade. Piccolo apanhou o pedaço de madeira sem
esforço, esmagou-o na mão esquerda, transformando-o em ripas e serradura.
Sentiu o rapaz tremer na outra ponta do pedaço de madeira. A rapariga gritou
outra vez e começou a chorar.
- Não me leve! Senhor extraterrestre, não me leve.
O rapaz segurava no coto do pedaço de madeira com ambas as mãos,
tremendo como um canavial batido a vento.
O drama tinha mesmo durado demasiado.
Piccolo afastou-se às arrecuas do veículo, sacudindo a mão para
limpá-la das ripas e da serradura. Não havia ataque nenhum, compreendeu
atarantado. Era apenas um rapaz e uma rapariga da Dimensão Real, recolhidos
dentro de um veículo, a fazer coisas que os rapazes e as raparigas costumavam
fazer, até na Dimensão Z. Sentiu-se estúpido. Bem, o mal já estava feito, tinha
exibido a pele verde e estranha de extraterrestre, tinha revelado a sua
presença naquela dimensão, tinha destruído o veículo, tinha interrompido os
dois apaixonados. Saltou e voou para sair daquela clareira. Ainda ouviu o berro
da rapariga:
- Ele voa!!
A noite fora mais agitada que o pretendido. Chegou à caverna esgotado
pelos acontecimentos. Dende interceptou-o.
- Piccolo-san, já estás de volta?
- Hai.
- Senti os tremores de terra.
- Distraí-me um pouco com os treinos.
- Não encontraste ninguém da Dimensão Real?
Piccolo encaminhou-se para o fundo da caverna e deu graças à pouca luz
que lhe ocultava a cara de mentiroso.
- Não, não vi ninguém.
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