9 de dezembro de 2012

Capítulo IX - IX.1 O extraterrestre.


A paciência de um namekusei-jin tinha limites e ele era ainda menos paciente que um namekusei-jin normal.
Piccolo levantou-se. A capa branca ondulou a acompanhar-lhe os passos que o levavam para fora daquela caverna húmida e claustrofóbica, situada algures numas montanhas e que era o local que substituía o Palácio Celestial na Dimensão Real.
A forma subtil e mesquinha de Zephir humilhar Deus. Estava convencido que o feiticeiro escolhera com especial atenção aquela caverna enfiada nas profundezas da Terra, que não condizia com o arejado recinto que flutuava entre as nuvens e de onde Deus vigiava a Terra. Dende nunca se queixara. Passava os dias recolhido em pensamentos ou conferenciando com Mr. Popo sobre os males daquele mundo, chegara a intervir em algumas ocasiões, discretamente, proporcionando alívio às penas que lhe magoavam mais o coração, apesar de Mr. Popo alertá-lo para os possíveis perigos dessa interferência. Piccolo, por seu turno, entregava-se a uma profunda meditação, procurando alhear-se do que se passava à volta, a resignação de Mr. Popo, a ingenuidade de Dende.
Mas depois de tanto tempo confinado àquele espaço exíguo, sentia falta de ar e falta de exercício, a paciência esmigalhada, os nervos à flor da pele.
Dende apareceu.
- Onde vais, Piccolo-san?
- Vou sair.
Parou. O Todo-Poderoso reagiu mal à resposta.
- Tu não podes sair, Piccolo-san! – Exclamou agitado. – Nenhum de nós pode sair. O nosso aspeto é demasiado esquisito para os padrões da Dimensão Real.
- Pouco me importa o meu aspeto – ripostou a reter a raiva.
A estreita saída da caverna estava tão escura como o seu interior, o que queria dizer que anoitecera na Dimensão Real.
- Não há problema. É de noite e ninguém anda por estas montanhas do fim do mundo a estas horas. Ninguém me vai ver.
Dende desistiu.
- Tem cuidado.
Não lhe respondeu.
No exterior, o vento era frio e soprava em rajadas que varriam os montes despidos, habitados por sobreiros silenciosos. A noite estava escura, no céu as nuvens prometiam chuva e ocultavam as estrelas. Levantou voo, afastou-se, sobrevoando cauteloso as árvores, a capa branca adejando, assemelhando-se a um fantasma vigilante da quietude noturna.
Aterrou suavemente num pequeno vale, um local discreto e deserto afastado de luzes e, portanto, de casas e de gente.
Inspirou profundamente o ar fresco, concentrou-se devagar. Nada de pressas, saboreava cada segundo daquele momento egoísta, olhando para o seu interior. Curiosamente, não conseguiu vazar a mente na totalidade, tal como seria preferível. As memórias de um passado muito afastado e que devia já estar esquecido subiram à tona para o assombrar.
Recordava e, sem saber porquê, não fez nenhum esforço para impedir essas recordações, enquanto reunia o poder que latejava dentro dele e que ousava desatar, naquela noite, na estranha Dimensão Real.
O dia da sua maior glória e também o dia do seu maior fracasso, o destino encarregara-se dessa ironia. Apertou os punhos. Concentrava-se, a recordar aquela ilha, vinte anos antes.
O barulho surdo da terra a agitar-se debaixo dos pés, o sabor inconfundível do poder descomunal que o fazia invencível, os olhos assustados e incrédulos do seu adversário. Soubera, então, que não tinha rival. Nem mesmo os saiya-jin estavam à altura da sua força depois de ele e de kami-sama se terem unido num namekusei-jin temível.
Os guerreiros tentavam salvar a Terra do poder destrutivo dos humanos artificiais do Dr. Gero. Número 17 sofrera a primeira derrota, tentava desesperadamente eliminá-lo, a raiva aumentava na mesma proporção da frustração, e ele, o namekusei-jin temível, encharcava-se em orgulho.
Deixou de sorrir com a memória seguinte.
Em cima da depressão rochosa, o monstro olhava-os. A ele, a número 17. Aos outros humanos artificiais, número 18 e número 16. Tivera um mau pressentimento. Cell, o androide orgânico, aproximara-se. Exibira o seu novo poder, conseguido à custa das vidas humanas que tinha absorvido. Então, o namekusei-jin temível compreendera, com amargura, que estava derrotado.
Abriu os olhos. O corpo quente inflado de energia, pronto para começar com os treinos.
As recordações precipitaram-se num turbilhão de sensações. Cell era terrivelmente poderoso. Atacara número 17, queria absorvê-lo com todas as consequências nefastas que isso traria para o Universo. Consciente das suas limitações, Piccolo atacara o monstro. A voz de número 16 pedia que número 17 e número 18 fugissem. O último ataque, a explosão, a chuva de água salgada e de pedras. O rosto desafiador de Cell. A dor profunda no pescoço. O esquecimento…
Gritou. Envolveu-se no próprio grito, borrou as recordações.
Gritou tão alto que os montes abanaram e o mundo inteiro da Dimensão Real. Tentou manter-se ereto ao sentir o corpo separar-se em dois. Os músculos, os órgãos, a pele, a mente dividia-se. Após uns instantes de dor e de confusão, ao abrir os olhos, tinha diante dele o seu duplo. Um segundo Piccolo, um segundo namekusei-jin temível, com as mesmas recordações.
Não havia tempo para cortesias ou convites. A partir do instante em que se dividia em dois, os treinos começavam. Havia, no entanto, uma regra. O duplo nunca atacava antes dele, então Piccolo tomou a iniciativa.
Na noite silenciosa, seguiram-se golpes e contragolpes violentos, que iluminaram o cenário com relâmpagos intermitentes sempre que faziam contacto. O som do combate troava no vale, estremecendo o ar, lançando bolhas de calor que agitavam os sobreiros e os arbustos.
Piccolo pontapeou o duplo na cara, que caiu de costas. Aproveitando a aparente vulnerabilidade, saltou-lhe para cima, para o atingir com os punhos, mas o duplo desviou-se. Saltou, devolveu o ataque com um forte pontapé nas costelas. Piccolo gemeu. Irritou-se e atacou o duplo com ganas. Conseguiu afastá-lo com um par de socos, aumentou a distância dando um salto mortal. Mas quando esticou os braços para conseguir agarrá-lo e atirá-lo outra vez ao chão, o duplo tinha desaparecido.
- Nani?! Onde é que se meteu?
Sentiu-o perto, a mascarar a energia para não ser notado. Piccolo postou-se no terreno, a visionar a paisagem escura com os olhos e com a mente, em posição de defesa. Aguardava… Os segundos pareceram-lhe horas.
Nisto, um sibilo cortou o silêncio da noite. Piccolo voltou-se e os olhos esbugalharam-se com o espanto. Um raio mortífero precipitava-se na sua direção. O duplo atacava-o com um Makanko Sappou.
O único gesto que conseguiu fazer foi uma palmada. Piccolo desviou o ataque que fendia o ar numa espiral alaranjada. O raio embateu na encosta de um monte, explodiu e a terra saltou por todos os lados.
- Nada de ataques energéticos – avisou irritado.
O duplo limitou-se a sorrir.
Reataram o combate. A luta era renhida, estranha para quem a observasse. Os dois namekusei-jin, nascidos de um mesmo ser, digladiavam-se furiosamente para superar o contrário em força e em técnica.
O duplo apanhou Piccolo com uma cotovelada no estômago, derrubou-o. O duplo estendeu as mãos, os dedos muito abertos. Piccolo sacudiu a cabeça para despertar, encarou o adversário com o rosto crispado.
Nas mãos do duplo brilhava uma bola amarela de energia que iluminava as silhuetas de ambos. Piccolo cerrou os dentes, a bola explodiu em cima dele. O som propagou-se pelos montes, varrendo-os numa vaga imparável, provocando um sismo.
Piccolo ergueu-se no meio de uma nuvem acinzentada e vociferou:
- Kuso! Já disse que não quero ataques energéticos!
O duplo desafiou-o com uma gargalhada.
- Estás a brincar comigo? – Indagou Piccolo entre dentes.
O duplo não lhe respondeu.
Piccolo retirou o turbante e a pesada capa branca, o duplo fez o mesmo. Inclinou o pescoço para ambos os lados, apertou os dedos, fazendo estalar as articulações.
Novo assalto, nova luta renhida. Pontapés e murros, Piccolo tinha vantagem, enviou o duplo numa espiral desgovernada até ao céu ao lançar com as mãos um disparo invisível de ki. Subiu atrás do duplo, ultrapassou-o no ar, atingiu-o com um pontapé à meia-volta na cabeça. Viu o adversário cair no monte, abrindo uma cratera que espalhou pedras e vegetação em redor.
Respirou fundo, limpou o suor da testa. Concentrou o ki, precipitou-se para o local da cratera, punho em riste, cruzando os céus, assobiando como um meteorito a precipitar-se sobre o planeta. Mas quando estava perto, viu a cratera vazia. Estacou, a pouca distância, flutuou, recuperando o equilíbrio. Não conseguiu evitar a resposta do duplo. Sentiu o impacto nas costas, o corpo a ressentir-se com a dor súbita. Caiu com estrondo, arrancando sobreiros pela raiz. Levantou-se ligeiramente aturdido, mas riu-se.
O duplo aterrou à sua frente. Sorria, e era como se Piccolo se visse ao espelho.
Preparou novo ataque. Dobrou os braços pelos cotovelos, afastou as pernas e dobrou-as pelos joelhos. A energia insuflou-lhe os músculos, aumentou-lhes o tamanho.
Mas, de repente, estacou. O seu ouvido apurado alertava-o para alguma coisa que estava a acontecer nas redondezas. Tinha-se afastado do vale que tinha escolhido para os treinos, conseguia avistar, mais acima, uma estrada estreita e alcatroada. Chamou a si o duplo, os dois fundiram-se no tempo de um segundo. Descontraiu-se para recuperar a sensação na pele, pois sempre que fazia o duplo regressar ficava, por momentos, dormente.
Escutou outra vez o pedido de socorro. Não vinha através de gritos pungentes, mas de lamentos espaçados, quase silenciosos, esmagados pela imposição de quem estava a atacar. Seguiu o que a audição lhe revelava, nos confins serranos. Avançou por entre as árvores, escalou uma encosta e descobriu um veículo estacionado, dissimulado entre a vegetação.
Escondeu-se atrás de uma árvore, certificando-se que os barulhos vinham dali. O veículo de quatro rodas abanava de um lado para o outro, sinal de que se desenvolvia uma qualquer luta no interior. Os lamentos passaram a gemidos dolorosos e aflitos.
Apressou-se. Alcançou o veículo, lançou-se à porta e arrancou-a. O metal torceu-se nas suas mãos, atirou a sucata para longe, que caiu com um ruído arrepiante. Enfiou a cabeça dentro do veículo. Foi saudado com um grito estridente.
Uma rapariga, meio despida e de pernas alvas levantadas até ao tejadilho, mirava-o aterrorizada. Um rapaz, que estava sobre a rapariga, voltou-se irritado.
- Mas que merda vem a ser esta?
Piccolo imobilizou-se. O pedido de socorro vinha dali, tinha a certeza, mas a cena que surpreendera não lhe parecera condizente com um assalto, com uma vítima e com um atacante. Abriu a boca, queria dizer qualquer coisa, mas não conseguiu pensar em palavras. O cérebro era um deserto de silêncio.
A rapariga gritou, a tentar recolher as pernas. O rapaz abriu os braços, esmagou a rapariga nas suas costas, empurrando-se para trás com os pés que carregava no banco da frente do veículo. Repetiu histérico:
- Mas que merda vem a ser esta?!!
- É um extraterrestre! Socorro!!! Pedro, faz alguma coisa!
Tanto a rapariga como o rapaz estavam pálidos como a face da lua.
Piccolo susteve a respiração. Sentia o suor a encharcar-lhe a testa. Estava tão assustado como os dois infelizes dentro do veículo.
- Precisam de ajuda? – Sussurrou, arrancando a frase do estômago.
- Ele fala! Pedro, por favor! Tira-o daqui!
O rapaz tateou o chão, as mãos a tremer:
- Onde está o meu taco de baseball? Merda… Onde está?
A rapariga fincou as unhas vermelhas no braço do rapaz.
- Merda, larga-me! Preciso do taco!
- Ele vai levar-nos! O extraterrestre vai levar-nos!! Pedro, faz alguma coisa!
- Estou a tentar! E para de me gritar aos ouvidos!
O drama já tinha durado demasiado, pensou Piccolo.
O rapaz fez um gesto brusco, brandiu diante dos olhos dele um pedaço de madeira arredondado na extremidade. Piccolo apanhou o pedaço de madeira sem esforço, esmagou-o na mão esquerda, transformando-o em ripas e serradura. Sentiu o rapaz tremer na outra ponta do pedaço de madeira. A rapariga gritou outra vez e começou a chorar.
- Não me leve! Senhor extraterrestre, não me leve.
O rapaz segurava no coto do pedaço de madeira com ambas as mãos, tremendo como um canavial batido a vento.
O drama tinha mesmo durado demasiado.
Piccolo afastou-se às arrecuas do veículo, sacudindo a mão para limpá-la das ripas e da serradura. Não havia ataque nenhum, compreendeu atarantado. Era apenas um rapaz e uma rapariga da Dimensão Real, recolhidos dentro de um veículo, a fazer coisas que os rapazes e as raparigas costumavam fazer, até na Dimensão Z. Sentiu-se estúpido. Bem, o mal já estava feito, tinha exibido a pele verde e estranha de extraterrestre, tinha revelado a sua presença naquela dimensão, tinha destruído o veículo, tinha interrompido os dois apaixonados. Saltou e voou para sair daquela clareira. Ainda ouviu o berro da rapariga:
- Ele voa!!
A noite fora mais agitada que o pretendido. Chegou à caverna esgotado pelos acontecimentos. Dende interceptou-o.
- Piccolo-san, já estás de volta?
- Hai.
- Senti os tremores de terra.
- Distraí-me um pouco com os treinos.
- Não encontraste ninguém da Dimensão Real?
Piccolo encaminhou-se para o fundo da caverna e deu graças à pouca luz que lhe ocultava a cara de mentiroso.
- Não, não vi ninguém. 

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