11 de dezembro de 2012

Capítulo IX - IX.3 A joelhada no estômago.


O planeta Namek.
As paisagens nuas eram um desespero para o olhar, tão monótonas e infelizes que entristeciam qualquer coração.
O planeta Namek.
Predominava o verde e o azul, em tons pálidos. Não havia o mínimo vestígio da exuberância da Natureza, inexistente naquele planeta inóspito e deserto. Ali não existia a alegria da vida a brotar em cada canto como acontecia na Terra, mas tinha a sua beleza particular.
O planeta Namek.
O vento que varria habitualmente as extensas planícies azuis estava tranquilo. Soprava mansamente e o seu lamento perdia-se no horizonte afastado, onde, no grande mar verde a refletir o céu igualmente verde, se recortavam muitas ilhas. Nervoso, Son Gohan segurava o radar do dragão entre as mãos. Gritou a resposta ao que lhe tinham perguntado:
- Isto é… é um relógio!
Vegeta achou estranho um relógio terrestre com aquela configuração e disse-o no seu estilo muito próprio de cínico inveterado. Como conseguiam os terrestres ter a tecnologia necessária para viajar até tão longe nas profundezas do espaço e construir relógios tão grandes. Gohan agarrou com mais força o radar do dragão. Realmente, aquilo não era nenhum relógio.
Gohan empurrou os óculos com um dedo, que teimavam em descair para a ponta do nariz. Aclarou a garganta.
O planeta Namek.
A bola de dragão de quatro estrelas estava mesmo atrás de Gohan, encostada ao pequeno montículo de terra onde estava tremendo, agarrado ao radar. Se Vegeta avançasse mais um passo, se esticasse o pescoço, veria a bola de dragão.
Vegeta falava agora do pai dele. Chamou-o traidor e Gohan enfureceu-se. Vegeta sorriu. Via-se que tinha prazer em vê-lo furioso.
Gohan falou, depois de ter a garganta desimpedida:
- Comecemos outra vez a contar. De um até dez. Ichi, ni, san, shi, go, roku, shichi, hachi, kyu, ju.
O planeta Namek.
Vegeta pousou a mão nos cabelos de Gohan que, de furioso, passou a admirado. Aligeirou a pressão sobre o radar do dragão. Vegeta mostrava agora um sorriso genuíno e lembrou-lhe que Gohan, Kakaroto e ele próprio eram todos saiya-jin. Acrescentou:
- Somos os três últimos saiya-jin. Não o esqueças…
A mão descaiu para o rosto de Gohan que contemplava Vegeta boquiaberto. Nunca o julgara capaz de uma atitude daquelas depois de o ter enfrentado num combate até à morte naquele deserto rochoso da Terra. Vegeta prosseguiu:
- E diz isso ao teu pai quando o voltares a ver.
O tempo parou. Gohan acreditou que as palavras de Vegeta eram sinceras. Já lhe tinha dito que se sentia misericordioso e até fizera uma coisa inaudita: poupara a vida a Kuririn quando este lhe entregara a bola de dragão que segurava debaixo do braço. Na cara tinha o calor da mão de Vegeta, que lhe sorria e Gohan acreditava em Vegeta
Nisto, o tempo recuperou a sua marcha inexorável com aquela dor funda e avassaladora. Gohan sentiu o joelho de Vegeta penetrar violentamente no estômago. Gritou. Vegeta ria-se, outra vez cínico. Gohan caiu no chão sem ar. O pé de Vegeta calcou-lhe a cabeça. Aquela joelhada no estômago…
Gohan gritou:
- Ana-san!
Assustei-me. Agarrei na esferográfica e disse muito depressa:
- Hai… Wakarimasu.
Gohan perguntou:
- Compreendeste? O quê?
- I-isso…
- Onde é que estavas?
- Namek.
Com um gesto cansado, Gohan tirou os óculos, colocou-os em cima da mesa, apertou a cana do nariz junto aos olhos. Suspirou:
- Namek.
- Hai. Gomen nasai, Gohan-san. Prometo que prestarei mais atenção, daqui para a frente.
- Não está a resultar – murmurou, de olhos fechados. – E eu devo terminar isto, de uma vez por todas.
Não gostei do que ouvi. Pus-me a desenhar um círculo no caderno que me saiu torto, porque talvez quisesse desenhar um coração. Sentia-me nervosa por estar ali ao pé dele. Justifiquei-me, enquanto engrossava os contornos do círculo:
- Estava a lembrar-me quando encontraste Vegeta em Namek e tu tinhas escondido a bola de dragão de quatro estrelas. Seguravas no radar do dragão, ele perguntou-te o que era aquilo e tu respondeste…
- Que era um relógio.
- Hai.
Encarei-o. Sorria-me.
- Um relógio – concordei, sorrindo com ele.
- Tu conheces os meus segredos.
- Conheço. Pelo menos, aqueles que estão em “Dragon Ball”. Vi-te crescer… - Comecei a rir. – É tão estranho dizer isto. Vi-te crescer, Son Gohan.
- O que chega a ser embaraçoso.
- Não fiques com vergonha.
Ele inclinou-se sobre a mesa, coberta de papéis, de livros, numa desordem típica que agora me parecia mais especial.
- Ana-san…
- Hai.
- Esta foi a nossa última aula de japonês.
- Porquê? – Disparei espantada.
- Não podemos continuar com as aulas… É demasiado perigoso.
- Porquê? – E desta vez gritei, ainda mais admirada.
O rosto dele torceu-se indignado. Não gostara do meu grito, afinal, estava na casa dele, era sua convidada. Encolhi-me. Ele sabia ser agradável, amável, um doce, mas também sabia ser rígido, inflexível, austero e também sabia matar.
- Deixei que entrasses hoje na minha casa, deixei que começássemos a aula, mas iria sempre dizer-te isto, Ana. As nossas aulas de japonês terminaram.
- Não percebo. É porque sei como se chama, professor?
- Se já começaste a tratar-me por tu e pelo meu verdadeiro nome… não mudes. Onegai shimass.
- Está bem.
Continuava debruçado sobre a mesa, com o rosto sério, afiado como a lâmina de uma espada mortífera.
- Por que razão crês tu que estamos aqui, Ana-san? No teu mundo, a conviver contigo e com as pessoas da tua cidade e do teu país?
- Sim, é estranho… Por que é que não estão no Japão?
- Achas que para nós é agradável, que é divertido? Que são como umas férias, para conhecer um mundo novo e para interagirmos com os locais?
Notei que mordeu o lábio inferior, como se tivesse dito uma asneira. Prosseguiu num tom grave, esgrimindo a espada mortífera:
- A nossa estadia não é agradável, nem divertida. Estar no teu mundo é um castigo, Ana-san. – Fez uma pausa. – E é castigo maior para Trunks.
Não entendi por que razão mencionara Trunks, talvez para me conseguir atingir mais profundamente com a espada mortífera.
Apanhou-me uma mão, enclausurou-a entre as suas. Aquele calor súbito e inesperado fez-me corar, senti um formigueiro nas pernas. Ele sabia matar e estava a fazê-lo, lentamente, de uma maneira quase indolor, para que sucumbisse primeiro ao veneno. Olhei para a minha mão.
- Entendo a tua curiosidade. Deve ser maravilhoso conhecer-nos, quando não passamos de uma aventura imaginada por alguém no teu mundo, gente distante, que vive apenas numa fantasia colorida. Mas se insistires em conviver connosco, irás colocar o Universo em perigo.
- Mas isso não é possível. O que posso eu fazer? Não passo de uma rapariga normal – tartamudeei, com o calor a estender-se da mão para o braço e para os ombros, viajando pela corrente sanguínea.
- Se desconheces o que nos trouxe aqui, como podes fazer essa afirmação?
Compreendi. Murmurei:
- Vocês estão a combater um novo inimigo.
Gohan não me quis confirmar a suspeita.
- Mais poderoso que Majin Bu? – Perguntei.
- Não queiras saber mais. Já te disse, é perigoso.
- Trunks também me disse o mesmo.
- É por causa dele que queres aprender japonês, não é?
Senti que me apertava a mão, que já suava. Humedeci os lábios.
- Pois… Parece que também me descobriste um segredo.
- Esquece Trunks. 
- O quê?! – Exclamei indignada.
- Afasta-te dele.
A minha cabeça ficou zonza.
- Não o deves voltar a ver - insistiu.
- Diz-lhe isso também. É ele quem tem vindo procurar-me, ultimamente.
- Trunks já sabe que não te pode ver.
Senti as lágrimas nos olhos. Mas eu estava apaixonada por ele… A espada mortífera tinha acabado de atravessar-me o coração.
- Percebes, Ana? Afasta-te de Trunks, afasta-te de nós.
O eco da sentença vibrou nos meus ouvidos.
A minha mão ficou exposta, a fina capa de suor que me cobria a pele gelava ao ar. Gohan soltava a minha mão, levantava-se.
- Sayonara, Ana-san.
Ele tinha sorrido comigo, quando partilhámos a memória do planeta Namek e do estranho relógio gigante que não era nenhum relógio, mas o radar do dragão. Tínhamos rido juntos, durante um centésimo de segundo.
Levantei-me aturdida. Fechei o caderno dos apontamentos, enfiei a esferográfica na espiral de metal que lhe unia as folhas. Tentei não perder o controlo e a dignidade. Devemos ser dignos quando estamos a morrer, não era? Mas a espada cravava-se fundo no meu coração sangrante.
Abri a mala, meti o caderno lá dentro, ou tentei, nem sequer me lembrava que o caderno não cabia ali dentro. A mala ficou aberta, coloquei a alça ao ombro.
Acenei que sim, a fechar os dentes com força, a aguentar a dor, as lágrimas, os farrapos da dignidade que se desfazia como cinzas a meus pés.
Não me despedi.
A noite estava fria. Entrei no automóvel, mas não me consegui aquecer.
As minhas aulas de japonês tinham terminado e, com as aulas, o sonho de conviver com uns heróis especiais de uma série de animação que tinha vindo do longínquo Japão iluminar os meus dias. Sentia-me traída.
Foi como no planeta Namek. Vegeta sorrira e depois enfiara aquela joelhada violenta e inesperada no estômago de Gohan.
Gohan sorrira e depois despedaçara-me o coração. Violentamente. Inesperadamente.
No caminho para casa, as lágrimas não me deixavam ver a estrada.

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