O planeta
Namek.
As paisagens
nuas eram um desespero para o olhar, tão monótonas e infelizes que entristeciam
qualquer coração.
O planeta
Namek.
Predominava o
verde e o azul, em tons pálidos. Não havia o mínimo vestígio da exuberância da
Natureza, inexistente naquele planeta inóspito e deserto. Ali não existia a
alegria da vida a brotar em cada canto como acontecia na Terra, mas tinha a sua
beleza particular.
O planeta Namek.
O vento que
varria habitualmente as extensas planícies azuis estava tranquilo. Soprava
mansamente e o seu lamento perdia-se no horizonte afastado, onde, no grande mar
verde a refletir o céu igualmente verde, se recortavam muitas ilhas. Nervoso,
Son Gohan segurava o radar do dragão entre as mãos. Gritou a resposta ao que
lhe tinham perguntado:
- Isto é… é
um relógio!
Vegeta achou
estranho um relógio terrestre com aquela configuração e disse-o no seu estilo
muito próprio de cínico inveterado. Como conseguiam os terrestres ter a
tecnologia necessária para viajar até tão longe nas profundezas do espaço e
construir relógios tão grandes. Gohan agarrou com mais força o radar do dragão.
Realmente, aquilo não era nenhum relógio.
Gohan
empurrou os óculos com um dedo, que teimavam em descair para a ponta do nariz.
Aclarou a garganta.
O planeta
Namek.
A bola de
dragão de quatro estrelas estava mesmo atrás de Gohan, encostada ao pequeno
montículo de terra onde estava tremendo, agarrado ao radar. Se Vegeta avançasse
mais um passo, se esticasse o pescoço, veria a bola de dragão.
Vegeta falava
agora do pai dele. Chamou-o traidor e Gohan enfureceu-se. Vegeta sorriu. Via-se
que tinha prazer em vê-lo furioso.
Gohan falou,
depois de ter a garganta desimpedida:
- Comecemos
outra vez a contar. De um até dez. Ichi,
ni, san, shi, go, roku, shichi, hachi, kyu, ju.
O planeta
Namek.
Vegeta pousou
a mão nos cabelos de Gohan que, de furioso, passou a admirado. Aligeirou a
pressão sobre o radar do dragão. Vegeta mostrava agora um sorriso genuíno e lembrou-lhe
que Gohan, Kakaroto e ele próprio eram todos saiya-jin. Acrescentou:
- Somos os
três últimos saiya-jin. Não o
esqueças…
A mão descaiu
para o rosto de Gohan que contemplava Vegeta boquiaberto. Nunca o julgara capaz
de uma atitude daquelas depois de o ter enfrentado num combate até à morte
naquele deserto rochoso da Terra. Vegeta prosseguiu:
- E diz isso
ao teu pai quando o voltares a ver.
O tempo
parou. Gohan acreditou que as palavras de Vegeta eram sinceras. Já lhe tinha
dito que se sentia misericordioso e até fizera uma coisa inaudita: poupara a
vida a Kuririn quando este lhe entregara a bola de dragão que segurava debaixo
do braço. Na cara tinha o calor da mão de Vegeta, que lhe sorria e Gohan
acreditava em Vegeta
Nisto, o
tempo recuperou a sua marcha inexorável com aquela dor funda e avassaladora.
Gohan sentiu o joelho de Vegeta penetrar violentamente no estômago. Gritou.
Vegeta ria-se, outra vez cínico. Gohan caiu no chão sem ar. O pé de Vegeta
calcou-lhe a cabeça. Aquela joelhada no estômago…
Gohan gritou:
- Ana-san!
Assustei-me.
Agarrei na esferográfica e disse muito depressa:
- Hai… Wakarimasu.
Gohan
perguntou:
-
Compreendeste? O quê?
- I-isso…
- Onde é que
estavas?
- Namek.
Com um gesto
cansado, Gohan tirou os óculos, colocou-os em cima da mesa, apertou a cana do
nariz junto aos olhos. Suspirou:
- Namek.
- Hai. Gomen nasai, Gohan-san. Prometo que
prestarei mais atenção, daqui para a frente.
- Não está a
resultar – murmurou, de olhos fechados. – E eu devo terminar isto, de uma vez
por todas.
Não gostei do
que ouvi. Pus-me a desenhar um círculo no caderno que me saiu torto, porque
talvez quisesse desenhar um coração. Sentia-me nervosa por estar ali ao pé
dele. Justifiquei-me, enquanto engrossava os contornos do círculo:
- Estava a
lembrar-me quando encontraste Vegeta em Namek e tu tinhas escondido a bola de
dragão de quatro estrelas. Seguravas no radar do dragão, ele perguntou-te o que
era aquilo e tu respondeste…
- Que era um
relógio.
- Hai.
Encarei-o.
Sorria-me.
- Um relógio
– concordei, sorrindo com ele.
- Tu conheces
os meus segredos.
- Conheço.
Pelo menos, aqueles que estão em “Dragon Ball”. Vi-te crescer… - Comecei a rir.
– É tão estranho dizer isto. Vi-te crescer, Son Gohan.
- O que chega
a ser embaraçoso.
- Não fiques
com vergonha.
Ele
inclinou-se sobre a mesa, coberta de papéis, de livros, numa desordem típica
que agora me parecia mais especial.
- Ana-san…
- Hai.
- Esta foi a
nossa última aula de japonês.
- Porquê? –
Disparei espantada.
- Não podemos
continuar com as aulas… É demasiado perigoso.
- Porquê? – E
desta vez gritei, ainda mais admirada.
O rosto dele
torceu-se indignado. Não gostara do meu grito, afinal, estava na casa dele, era
sua convidada. Encolhi-me. Ele sabia ser agradável, amável, um doce, mas também
sabia ser rígido, inflexível, austero e também sabia matar.
- Deixei que
entrasses hoje na minha casa, deixei que começássemos a aula, mas iria sempre
dizer-te isto, Ana. As nossas aulas de japonês terminaram.
- Não
percebo. É porque sei como se chama, professor?
- Se já
começaste a tratar-me por tu e pelo meu verdadeiro nome… não mudes. Onegai shimass.
- Está bem.
Continuava
debruçado sobre a mesa, com o rosto sério, afiado como a lâmina de uma espada
mortífera.
- Por que
razão crês tu que estamos aqui, Ana-san? No teu mundo, a conviver contigo e com
as pessoas da tua cidade e do teu país?
- Sim, é
estranho… Por que é que não estão no Japão?
- Achas que
para nós é agradável, que é divertido? Que são como umas férias, para conhecer
um mundo novo e para interagirmos com os locais?
Notei que
mordeu o lábio inferior, como se tivesse dito uma asneira. Prosseguiu num tom
grave, esgrimindo a espada mortífera:
- A nossa
estadia não é agradável, nem divertida. Estar no teu mundo é um castigo,
Ana-san. – Fez uma pausa. – E é castigo maior para Trunks.
Não entendi
por que razão mencionara Trunks, talvez para me conseguir atingir mais
profundamente com a espada mortífera.
Apanhou-me
uma mão, enclausurou-a entre as suas. Aquele calor súbito e inesperado fez-me
corar, senti um formigueiro nas pernas. Ele sabia matar e estava a fazê-lo,
lentamente, de uma maneira quase indolor, para que sucumbisse primeiro ao
veneno. Olhei para a minha mão.
- Entendo a
tua curiosidade. Deve ser maravilhoso conhecer-nos, quando não passamos de uma
aventura imaginada por alguém no teu mundo, gente distante, que vive apenas
numa fantasia colorida. Mas se insistires em conviver connosco, irás colocar o
Universo em perigo.
- Mas isso
não é possível. O que posso eu fazer? Não passo de uma rapariga normal –
tartamudeei, com o calor a estender-se da mão para o braço e para os ombros,
viajando pela corrente sanguínea.
- Se
desconheces o que nos trouxe aqui, como podes fazer essa afirmação?
Compreendi.
Murmurei:
- Vocês estão
a combater um novo inimigo.
Gohan não me
quis confirmar a suspeita.
- Mais
poderoso que Majin Bu? – Perguntei.
- Não queiras
saber mais. Já te disse, é perigoso.
- Trunks
também me disse o mesmo.
- É por causa
dele que queres aprender japonês, não é?
Senti que me
apertava a mão, que já suava. Humedeci os lábios.
- Pois…
Parece que também me descobriste um segredo.
- Esquece
Trunks.
- O quê?! –
Exclamei indignada.
- Afasta-te
dele.
A minha
cabeça ficou zonza.
- Não o deves
voltar a ver - insistiu.
- Diz-lhe
isso também. É ele quem tem vindo procurar-me, ultimamente.
- Trunks já
sabe que não te pode ver.
Senti as
lágrimas nos olhos. Mas eu estava apaixonada por ele… A espada mortífera tinha
acabado de atravessar-me o coração.
- Percebes,
Ana? Afasta-te de Trunks, afasta-te de nós.
O eco da
sentença vibrou nos meus ouvidos.
A minha mão
ficou exposta, a fina capa de suor que me cobria a pele gelava ao ar. Gohan
soltava a minha mão, levantava-se.
- Sayonara, Ana-san.
Ele tinha
sorrido comigo, quando partilhámos a memória do planeta Namek e do estranho
relógio gigante que não era nenhum relógio, mas o radar do dragão. Tínhamos
rido juntos, durante um centésimo de segundo.
Levantei-me
aturdida. Fechei o caderno dos apontamentos, enfiei a esferográfica na espiral
de metal que lhe unia as folhas. Tentei não perder o controlo e a dignidade.
Devemos ser dignos quando estamos a morrer, não era? Mas a espada cravava-se
fundo no meu coração sangrante.
Abri a mala,
meti o caderno lá dentro, ou tentei, nem sequer me lembrava que o caderno não
cabia ali dentro. A mala ficou aberta, coloquei a alça ao ombro.
Acenei que
sim, a fechar os dentes com força, a aguentar a dor, as lágrimas, os farrapos da
dignidade que se desfazia como cinzas a meus pés.
Não me despedi.
A noite
estava fria. Entrei no automóvel, mas não me consegui aquecer.
As minhas
aulas de japonês tinham terminado e, com as aulas, o sonho de conviver com uns
heróis especiais de uma série de animação que tinha vindo do longínquo Japão
iluminar os meus dias. Sentia-me traída.
Foi como no
planeta Namek. Vegeta sorrira e depois enfiara aquela joelhada violenta e
inesperada no estômago de Gohan.
Gohan sorrira
e depois despedaçara-me o coração. Violentamente. Inesperadamente.
No caminho
para casa, as lágrimas não me deixavam ver a estrada.
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