Os seus
pulmões secaram, como se tivesse respirado areia. Zephir comprimiu a pedra de
cristal entre os dedos esguios. A angústia ensombrou-lhe o rosto lívido. Não
acreditava no que estava a ver. Com a língua seca, gaguejou estupefacto:
- Ma… saka…
Não.
Refugiava-se
no seu santuário. Tentara encontrar o paradeiro da rapariga da Dimensão Real
com a ajuda da pedra de cristal mas, por ser de outra dimensão, não a conseguia
visualizar e urrara de frustração. Aproveitara para seguir o desenrolar dos
acontecimentos, alertado pelos sismos que de esporádicos passaram a
persistentes.
Os combates
estavam descontrolados.
Vegeta tinha
destruído o Santuário das Oferendas enquanto lutava contra Julep, Piccolo
disparava raios contra os kucris que corroíam vorazes a estrutura do templo,
Keilo exibia-se diante de Son Goku aumentando o seu poder exponencialmente,
havia explosões nos subterrâneos e descobriu que o filho de Vegeta tinha
conseguido resgatar o filho de Son Goku.
- Não…
Vira os dois saiya-jin, Keilo e Son Goku, lutarem
encarniçadamente com aquela aparência bizarra de porcos-espinhos dourados. Vira
e não conseguira fazer nada para o impedir como os dois saiya-jin trocaram duas esferas gigantescas de energia, uma
vermelha e azul, que, ao se tocarem, explodiram, reduzindo a cinzas o que
estava debaixo e os malditos saiya-jin,
que estavam por cima, continuavam inteiros.
O Salão da
Luz tinha sido destruído pela explosão.
As unhas
arranharam a pedra de cristal.
Jamais
haveria de olvidar a imagem do Trono de Marfim a ser engolido por um mar de
fogo. Assentou as mãos de cada lado do livro de magia e rugiu:
- Basta!
Não lhe
importava coisa alguma naquele momento: nem bolas de dragão, nem medalhões, nem
raparigas da Dimensão Real.
Fixou Keilo
através da pedra e falou-lhe com aspereza:
- Keilo, o
combate terminou. Deixa-o ir!
O murro de
Goku assobiou-lhe perto do nariz. Keilo levantou a cabeça.
- Nani?
A voz de Zephir
insistiu:
- Ouviste-me.
Regressa ao Templo da Lua, imediatamente.
A pedra de
cristal não deixava passar as palavras de Goku. Este moveu a boca, perguntava
qualquer coisa. Keilo revoltou-se.
- Estás
dizer-me para desistir? Agora?!
- É uma
ordem, saiya-jin! – Exclamou Zephir.
– Deixa que Son Goku e os seus companheiros abandonem este lugar.
A capa
dourada desapareceu, os cabelos de Keilo tornaram ao negro habitual. Lutava
contra a sua ordem e Zephir estalou os dedos. O saiya-jin dobrou-se num espasmo violento, berrando agarrado à
cabeça.
Ele que nunca
se esquecesse quem era o mestre, ou iria sofrer.
Zephir
acalmou-se ao torturar o saiya-jin.
Soltou-o quando se achou satisfeito, o M tatuado na testa de Keilo flamejava
como se tivesse acabado de ser marcado na carne por fogo em brasa. Ainda o viu
a sorrir imbecilmente para Son Goku, pescoço inclinado para a direita, mole
como uma marioneta a quem tinham cortado os fios. Ainda o ouviu dizer:
- Voltaremos
a encontrar-nos.
***
Goku
esbugalhou os olhos. Keilo agitava-se como se alguém lhe estivesse a mexer na
alma. Primeiro, desatara a falar sozinho. Agora, enxotava um qualquer fantasma
que o estava a esgravatar por dentro. Também regressou ao estado normal, até porque
tinha os músculos tolhidos e um cansaço avassalador chupava-lhe as derradeiras
forças.
- Keilo, dai jó cá?
O combate
terminava abruptamente. O saiya-jin
despediu-se com um “voltaremos a encontrar-nos” e entrou no recinto do Templo
da Lua, fugindo contrariado.
O vento
lamentou-se.
Um grito,
pancadas secas e breves. Alguém saiu disparado pelo ar e Goku reconheceu-o.
- Vegeta! – Chamou
preocupado.
O príncipe travou
o voo forçado. Limpou o sangue da cara. Julep veio logo atrás e ficaram os dois
frente a frente. Antes de Vegeta se adiantar, abanou um dedo em sinal de
negação.
- O jogo
terminou, Vegeta. Voltaremos a encontrar-nos.
A mesma
despedida, Goku arrepiou-se. Era coisa de Zephir, de certeza.
O demónio
regressou ao templo.
- Espera,
maldito!
- Vegeta!
Vegeta travou
o impulso.
- O que
queres, Kakaroto?
- Não o
sigas. Passa-se aqui alguma coisa. Keilo também abandonou o combate.
- Não tenho
nada a ver com isso. O meu combate é com Julep.
- Espera!
Espíritos
familiares saíam do recinto que fumegava semidestruído. Aproximavam-se, eram
três. Piccolo vinha à frente, depois reparou em Trunks e com Trunks vinha o seu
filho. Gritou perplexo:
- Goten-kun?!
- Otousan…
Esmagou-o num
abraço.
- Goten, tu
estás… vivo?
Vegeta interrompeu
o reencontro dizendo cínico:
- Tens tempo
para essas tretas sentimentais depois. O que raios está a acontecer aqui?
- Zephir
recolheu os seus guerreiros – explicou Piccolo. – Quando comecei a combater com
Kumis, o demónio esquivou todos os meus golpes e depois disse-me que teria de ir
embora, ordens do sensei. Voltaremos
a encontrar-nos, acrescentou.
Goku olhou
para o filho, agarrando nele pelos braços. O vento agitava-lhe a melena
desgrenhada. Sempre tivera cabelos rebeldes, modos rebeldes, apesar de ser
meigo como Gohan. Crescera sete anos sem ele, adorara-o desde a primeira vez
que o vira naquele torneio, antes de Majin
Bu.
- O que foi
que aconteceu?
- Nunca
cheguei a morrer do ferimento, ‘tousan.
E fui curado.
- Por quem?
- Por Zephir,
acho eu. Vocês também têm coisas para me contar. Não é? Histórias muito
compridas.
- Não podemos
continuar a conversa noutro sítio? – Insistiu Vegeta. – Não gosto de estar
aqui, tão próximo de… Keilo. E dos caprichos daquele maldito feiticeiro.
- Apesar de
não concordar com a maneira com que o meu pai está a dizê-lo, julgo que ele tem
razão – disse Trunks, de braços cruzados. – Vamos embora daqui.
Goku
aquiesceu.
- Hai.
- O que é que
acham que aconteceu? – Perguntou Piccolo.
- Não
sabemos. Mas este intervalo, permite-nos ganhar algum tempo – respondeu Goku. –
Temos a rapariga da Dimensão Real, Zephir recolhido com os seus guerreiros. Podemos
pensar no que iremos fazer a seguir.
- Muito bem. Regressamos
ao Palácio Celestial – concluiu Vegeta.
- Rapariga? –
Admirou-se Goten. – Ela, por acaso, chama-se Ana?
Trunks
admirou-se.
- Como é que
sabes?
- Encontrei-a
no templo.
-
Encontraste-a no templo? Ela não está no Palácio Celestial?!
- Talvez não.
– Goku focou os sentidos no recinto. – Kumis abandonou o combate comigo para te
perseguir e, pelos vistos, foi bem-sucedido. Conseguiu trazer a rapariga de
volta para Zephir. Sinto a aura dela lá em baixo.
- Nani?! – Exclamou Trunks. – Ela não pode
ficar ali!
Vegeta
agarrou-o pelo cós dos calções.
- Espera aí!
Onde é que pensas que vais?
- Tenho de ir
buscá-la, ‘tousan!
- Mas quem é
essa rapariga? – Indagou Goten.
- Faz parte
da história muito comprida – explicou Piccolo. Dirigiu-se a Goku – Son!
Leva-nos até Dende, regressa com a Shunkan
Idou e leva a rapariga contigo. Será muito mais rápido e não alertaremos o feiticeiro.
Assim, continuaremos com o tempo que nos concedeu para nos reorganizarmos
- Ouviste o namekusei-jin, baka? – Disse Vegeta ao
filho. – Pela primeira vez, está a dizer uma coisa acertada desde que isto tudo
começou.
Trunks
concordou contrariado. Mas Vegeta não o soltou.
- Bem, miná. Preparem-se para viajar – disse
Goku jovial, como se não tivesse acabado de lutar contra outro super saiya-jin de nível três.
Com os dois
dedos na testa concentrou-se nas vibrações de Dende e viajou até ao Palácio
Celestial. Um segundo depois, entrava nos escombros do Templo da Lua.
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