Dormitava, enlevada
no odor agridoce do suor dele misturado com o perfume do gel de banho, sorrindo
e aquecendo-me naquele peito forte, onde um coração batia por mim. Queria ficar
ali para sempre.
A fita tinha
chegado ao fim e a música calara-se, não houvera ninguém disponível para voltar
a cassete e pôr a tocar o outro lado, que devia estar repleto de mais músicas
românticas dos anos sessenta. Por isso, eu dormitava no silêncio do quarto.
De olhos
fechados, arrepiando-me de prazer, recordava-me o que tinha acabado de
partilhar com Trunks. Um momento intenso, uma viagem que encetara por um
caminho luminoso, o renascer para outra existência, a certeza que nunca mais
haveria de ser como fora, mas sem o mínimo remorso. Sem equívocos, sem mágoas.
Fora totalmente
dele e desejava ser dele até à eternidade. Gostaria que ele voltasse a fazer o
que me fizera, todos os dias, todas as noites. Quando ele quisesse, seria
novamente dele. Sem qualquer reserva, sem qualquer hesitação. Expondo a alma
até ao âmago, entregando o corpo até ao limite.
Senti que ele
se mexia. Despertava, porque também tinha adormecido, fechando-me nos seus braços,
depois de termos tomado juntos um duche rápido que encerrara os minutos intensos
de paixão.
- Ana…? –
Chamou.
- Sim?
Olhei para
ele. Estava ensonado, esfregou os olhos.
- Não tens
fome?
Realmente,
não estava com fome.
- Isto
abre-me o apetite.
- Isto? –
Estranhei.
- Fazer amor.
Espreguiçou-se.
Afastei-me dele, ofendida. Para mim, tinha sido a primeira experiência, mas
para ele, certamente, não passara de uma de muitas. Fiquei com ciúmes de todas
as raparigas que ele já tinha conhecido. Por um lado, o conhecimento dele
abrilhantara o momento, a segurança que demonstrara contrapusera-se à minha ignorância
e à minha timidez. Mas não gostara de como, a seguir à conquista e depois do
prémio, tinha nivelado o acontecimento, por baixo, como coisa banal. Isto!...
Levantei-me,
vesti as cuecas. Agarrei na camisa, enfiei os braços nas mangas, mordendo o
lábio inferior. Reparei que me tinha esquecido do soutien, logo o metia na mala. Tentei fechar a camisa, mas nenhum
botão tinha sobrevivido. Só havia linhas brancas desfiadas a emparelhar com as
casas. Os botões espalhavam-se pelo quarto, onde tinham caído saltitando.
O colchão
oscilou quando ele se levantou. Também se vestia, atrás de mim. Desisti
desolada de tentar fechar a camisa.
A sweat azul apareceu ao lado do meu braço.
- Veste isto.
Olhei para
Trunks que me sorria.
-
Estraguei-te a camisa. Gomen nasai.
Deixou de
sorrir, perguntou:
- Estás
aborrecida? Porquê?
- Nada –
remoí aceitando a sweat azul.
Pousei-a nos joelhos.
Ele saltou da
cama, agachou-se diante de mim.
- O que foi?
Estás arrependida do que fizeste comigo?
O olhar dele
continuava a hipnotizar-me.
- Não. Estou
apaixonada por ti, por isso…
- Eu também
estou apaixonado por ti. O que foi? Conta-me.
- Foi
especial… para ti?
Beijou-me de
repente. Abraçou-me com uma força tremenda, como se tivesse medo que eu me
evaporasse. Confessou baixinho, num murmúrio que mal ouvi:
- Arrisco a
minha vida para estar contigo.
Estremeci.
Levantou-se.
Tirou uma t-shirt de um monte de
roupas que ocupava o tampo de uma arca ao lado da cómoda destruída.
- As
raparigas com quem estive antes de ti incomodam-te?... Não percas o teu tempo a
pensar nelas.
- Porquê?
- Porque eu
não perco o meu.
Vestiu a t-shirt. A seguir, vestiu uns calções
compridos que escolheu do mesmo monte de roupas. Retirou um par de meias
lavadas de uma gaveta do roupeiro. Enquanto enfiava-as nos pés, sentado no
chão, acrescentou:
- Eu também
não me incomodo com o teu namorado.
- Que
namorado? – Indaguei zangada.
Meteu a mão
debaixo da cama, junto às minhas pernas e puxou um par de sapatilhas.
- Ainda ontem
à noite estavas com o rapaz e já nem pensas nele… Não interessa, não é? Acontece
o mesmo comigo. Todas as raparigas antes de ti não contam. Não interessam.
A ferroada
provocada por aquelas palavras foi dolorosa. Seria normal acontecer assim ou eu
estava simplesmente a ser a maior cabra do Universo, ao esquecer-me tão
miseravelmente daquele que tinha sido o meu namorado escassas horas antes, nem
um dia passado? Mas não havia dúvidas, certo? Sem dúvidas, portanto. As
escolhas do coração continuavam a ser insondáveis e irracionais. Se ele arriscava
a vida para estar comigo, eu arriscava a reputação e nem sequer eram coisas
comparáveis.
Trunks
beijou-me a testa, passou-me a mão pelos cabelos. Espreitou por cima da minha
cabeça, comentando:
- Ups… Vou
ter de tirar os lençóis e fazer uma cama de novo.
- Porquê?
Sorriu-me e
respondeu-me:
- Foi a tua
primeira vez… Deixaste um rasto.
Correi de
vergonha, percebendo o que aquilo significava. Nem ousei verificar o que estava
ele a ver, os lençóis manchados. Despenteou-me, beijou-me, desta vez na boca.
- Mas
primeiro vou até à cozinha, preparar um lanche.
Saiu do
quarto.
Vesti a sweat azul por cima da camisa sem botões.
Agarrei nas calças de ganga, suspirando e enxotando as dúvidas que insistiam em
assombrar-me. O mal era aquele silêncio, fazia-me melancólica, quando me devia
sentir feliz e abençoada. Ele tinha razão. Nada do que tinha existido antes
importava.
Fui até à
aparelhagem, sentei-me diante desta. Troquei a cassete de lado, carreguei no
botão do play. A primeira música era
“Stand By Me”, de Ben E. King. Sorri com a banda sonora que nos tinha acompanhado
naqueles momentos, mágica e singela, como se os versos cantassem a nossa
estranha união.
Calcei as
meias devagar, escutando.
“No I won’t be
afraid
Just
as long, as you stand
Stand by me”
A poesia
invadiu-me os sentidos, fechei os olhos.
Recordei-me
de Trunks a suspirar o meu nome, enquanto me amava.
- Ana…
A minha pele
arrepiou-se.
Abri os olhos, procurei
pelas minhas sapatilhas. Estava uma de cada lado, para onde tinham sido
atiradas. Levantei-me.
Nisto, houve um som que se
misturou com a voz de Ben E. King, um zumbido semelhante ao de um triturador
metálico de dentes finos. Congelei os movimentos. Olhei imediatamente para a
aparelhagem, podia ser a fita da cassete a enrolar-se toda e a estragar a
gravação. Mas não era. O som não vinha da aparelhagem, vinha de mais trás.
O som aumentou para um
ruído, algo como o ranger de uma besta feroz, de dentes mais grossos que o
triturador. Assustei-me ao sentir uma baforada gelada no pescoço. Olhei para a
cama e não me consegui mexer com o medo.
Por cima da cabeceira estava
um buraco negro que rodopiava furiosamente no sentido dos ponteiros do relógio,
como um remoinho. Gritei.
Uma manápula munida de
garras afiadas, também negra, saiu do remoinho. Gritei outra vez, tentei escapar
mas tropecei nos pés e estatelei-me no chão do quarto. Apoiei o peso do corpo
com os braços, cravei um dos botões da minha camisa na mão esquerda, uivei com
a dor.
O ruído tornou-se,
subitamente, ensurdecedor. Estendi os braços tentando afastar a garra, mas
apalpei o vazio. Algumas gotas de sangue da mão esquerda magoada pingaram no
soalho. A garra abafou-me o derradeiro grito. Arquejei sufocada, o corpo todo
embrulhado naquela névoa escura, que não tinha consistência, mas que era capaz
de me aprisionar e de me travar os movimentos. A garra apertou com mais força.
O escuro veio a seguir, frio como o hálito daquele monstro que me levava.
Perdi os sentidos.
Sem comentários:
Enviar um comentário